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“Vou simplesmente ficar aqui sentado
até o acabar. Recuso-me a ser deslocado. O meu livro,
seja o que for que digam, é, de longe, a coisa mais importante
que tentei fazer até agora. E pronto”.
Bruce Chatwin
Este livro é um projecto antigo. Daqueles que vamos adiando
constantemente, quem sabe se à espera do dia perfeito
para o começar, mesmo sabendo, lá no fundo, que
os dias perfeitos não existem.
Num dia de Setembro, de há dois anos atrás, decido-me
a escrevê-lo. E esse é o menos perfeito dos dias,
pois o mundo vê o céu a cair. Em directo.
O céu cai um pouco todos os dias, desde que o mundo é
mundo, e isso nem sempre é um bom presságio, como
aqueles em que nos permitíamos acreditar quando víamos
as estrelas cadentes. E digo “víamos”, porque
há muito que nos esquecemos de olhar para cima, numa
noite qualquer de céu aberto, e já não
nos lembramos da beleza do que paira sobre as nossas cabeças.
Já não identificamos a Ursa Maior, nem o Cisne,
nem sabemos de Castor e Pólux, perdemos o paradeiro da
Estrela Polar, e até Marte, que sempre lá esteve,
descobrimo-lo hoje como se fosse pela primeira vez, apenas porque
está mais próximo. Será por ter sido um
deus da guerra? Agora que os deuses da guerra parecem querer
voltar a brilhar em todo o seu esplendor!
Não olhamos o céu nocturno porque depois não
conseguimos conviver com a nossa condição humana,
disse-me um amigo, que essas observações tornam
mais difícil aceitarmos a contingência em que vivemos.
E deve ter razão. Talvez a luz pálida das estrelas
distantes nos faça olhar para dentro e isso seja uma
coisa tão inquietante que prefiramos ofuscar-nos com
o sol.
Mas neste dia de Setembro de há dois anos atrás,
eis que ficamos atónitos e desconcertados porque, sob
a resplandecente claridade matinal, apercebemo-nos de que o
céu pode cair exactamente sobre as nossas cabeças.
A qualquer momento.
Depois do choque, a contrição. Dizemos que o mundo
irá mudar. Mas também alguém o deve ter
dito das outras vezes... porque a nossa memória é
curta e já não nos lembramos de que houve muitas
outras vezes.
Sento-me, na minha sala, penso no mundo e nos homens e penso
que quero ser feliz. Estranha ousadia: o dia é triste
e eu quero ser feliz.
Não posso pensar apenas em mim, egoisticamente, quando
acabo de perceber como o mundo que nos rodeia se desintegra
se não conseguirmos desviar os olhos do nosso próprio
umbigo.
Porém, de uma forma quase redentora, vêm-me à
memória umas palavras. E não são as palavras
de nenhum profeta, nem falam em nome de Deus algum, ou de alguém
que se julgue detentor das verdades absolutas. São apenas
as palavras de um homem, um escritor. O seu nome é Lawrence
Durrel e, naquele belíssimo Quarteto de Alexandria, diz
que: ”Somente o amor nos poderá ajudar um pouco
mais.”. E, também eu, fico à espera que
“o universo me pisque o olho”, e digo: era uma vez...
Então, atrevo-me a sonhar. Reclamo um fundo musical e
ouço as canções dos poetas que falam de
amor. Falam de um amor puro e verdadeiro, de um amor ideal,
falam em nome desse amor, chegam a dizer coisas como: o amor
é uma coisa maravilhosa; o amor pode mover montanhas;
a melhor coisa que alguma vez aprenderás é a amar
e a ser amado... Poderei escrever sobre o amor? Dando-lhe esse
ou outro nome, paixão, atracção, simpatia,
afecto, amizade... a amizade de que falava a Clea de Durrel:
“ (...) mais profunda, infinitamente mais profunda, para
além das palavras e das ideias”. Talvez seja essa
a única coisa que não se pode deixar para trás...
Atrevo-me a sonhar. E escrevo. E sonho. E enquanto sonho escrevo
e enquanto escrevo sonho. E vivo. E amo as palavras porque as
vivo. E descrevo os lugares que existem em cenários que
nunca existiram senão nos meus sonhos.
Serão os meus sonhos legítimos? Não sei.
Esboço o “ele” em tríptico e defino-o
num espectro irisado, mas dou realce ao azul. Digo “eu”
porque é bom poder dizer “eu”. Mas “eu”
não sou eu e “ele” não é ele,
e percebo como os sonhos também doem. Mas isso os outros
não sabem.
Alguém irá, porventura, ler a minha história,
que construí a partir de um sonho. Talvez, durante esses
momentos de leitura, se sinta um pouco mais feliz, e essa será
a minha melhor recompensa.
Transformo o egoísmo numa dádiva: ofereço
os meus sonhos, nas palavras que escrevo, que escrevi, quem
sabe se para ti. Se desejei escrevê-las para alguém,
se sonhei que as escrevia para o mundo, a verdade é matreira
nos desejos e nos sonhos e talvez eu não saiba a verdade.
E deixo aqui a única verdade que sei: que a vida pode
nunca vir a ser um sonho, e, por isso, não podemos deixar
de sonhar. Cascais, 11 de Setembro
de 2003
Teresa Direitinho |